
A 19.ª edição do Trilho dos Moinhos começou antes da partida. Percebia-se no ambiente. Conversas entre gente que só se encontra ali uma vez por ano, bicicletas encostadas lado a lado e aquela mistura de nervosismo e boa disposição que só existe nestes dias.

O percurso rondava os 42 km, mas quem esteve lá sabe que o número diz pouco. Depois das semanas de chuva que antecederam o evento, a expectativa era de terreno pesado e complicado. Ainda assim, o que se encontrou foi diferente: trilhos trabalhados, passagens seguras e uma preocupação clara em manter a essência do BTT sem destruir o que o rodeia.
Os Amigos da Montanha habituaram quem participa a uma coisa muito específica: abrir caminhos que não são apenas para aquele domingo. Muitos ficam e passam a ser percorridos durante o resto do ano. Isso só acontece quando há respeito pela natureza e trabalho invisível feito muito antes do dia da prova.

Nos primeiros quilómetros quase não se fala. Cada um tenta encontrar o seu ritmo. Depois surgem as conversas, as ajudas nas subidas mais duras e aquele espírito que não aparece em classificações.
Ainda antes do ritmo estabilizar, um pequeno problema na corrente obrigou a parar por momentos. Nada de grave, apenas aquele instante de dúvida típico no início de uma prova. Ficou resolvido e, poucos quilómetros depois, já era só mais uma história para contar. Curiosamente, bastaram alguns segundos para perceber algo simples: num trilho destes ninguém fica sozinho muito tempo.
Pelo caminho, os abastecimentos voltaram a cumprir aquilo que muitos já esperam destes eventos: variedade, presença e tempo para respirar antes de seguir. E sim, este ano a já habitual bola de Berlim não falhou. Pequenos pormenores que parecem secundários, mas acabam por ficar na memória do dia.
Há também quem viva o evento de outra forma. Voluntários em cruzamentos, gente nos abastecimentos e fotógrafos que passam horas à espera de segundos de passagem. Este ano reparei ainda mais nisso. Habitualmente tenho quem me acompanhe e registe alguns momentos ao longo do percurso e, ao não acontecer, percebi melhor o valor de quem ali está apenas para que os outros guardem memória.

Outra realidade impossível de ignorar é a presença crescente das e-bikes. Vieram para ficar. Mudaram ritmos e dinâmicas, mas também trouxeram mais gente para o monte. O desafio agora é simples: perceber que partilhar o trilho implica adaptação de todos. Não se trata de substituir o BTT tradicional, mas de aprender a conviver no mesmo espaço.
No final, quase ninguém fala do tempo que fez. Fala-se das passagens técnicas, da lama em alguns pontos, de quem ajudou numa subida ou esperou no abastecimento. É aí que está o verdadeiro resultado do dia.
Quem já participou sabe: o Trilho dos Moinhos não é apenas uma prova. É um encontro anual de uma comunidade que se reconhece no esforço, na natureza e na partilha.

E a época não termina aqui. Os Amigos da Montanha já apontam ao próximo grande momento, a Maratona dos 5 Cumes. Não pela dificuldade apenas, mas porque estes eventos acabam por marcar o calendário de quem vê o BTT como mais do que pedalar.
A meta está no arco de chegada. Mas o que fica acontece muito antes dele.




