
Há eventos onde sabes exatamente ao que vais.
E depois há ultramaratonas.
Aqui, sabes como começas.
Nunca sabes verdadeiramente como acabas.
A Bairrada Ultra Marathon já vai na 11.ª edição.
E isso, no BTT, não acontece por acaso.
Porque manter uma ultra viva durante tantos anos exige mais do que vontade.
Exige organização.
Exige território.
Exige pessoas.
E exige atletas que continuem a voltar.
E continuam.

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Cheguei a Águeda ainda na sexta-feira.
E percebia-se logo que esta não era apenas mais uma prova no calendário.

As últimas edições da Bairrada Ultra Marathon têm sido acompanhadas pela chuva.
Este ano, Águeda voltou a acordar com céu pesado, terreno instável e aquela sensação de que o dia ia ser longo.
Céu pesado.
Terreno imprevisível.
Lama.
Mudanças constantes de ritmo.
E aquela sensação típica das ultras:
o dia ainda agora começou… e já parece longo.

Mas há algo curioso nestes cenários.
A chuva endurece a prova.
Mas aproxima as pessoas.
Os abastecimentos ganham outro valor.
Os voluntários deixam de ser apenas apoio.
Passam a fazer parte da experiência.
E aqui isso notou-se muito.

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Numa ultramaratona, não basta marcar fitas no percurso.
É preciso perceber o atleta.
Perceber o desgaste.
Perceber a quebra.
Perceber que, muitas vezes, uma palavra certa vale quase tanto como comida.
E foi isso que encontrei ao longo do percurso.
Pessoas disponíveis.
Postos de controlo organizados.
Abastecimentos completos.
Mas, acima de tudo:
gente presente.
Mesmo debaixo de chuva, havia sempre alguém a incentivar.
A orientar.
A ajudar.
A manter o ambiente vivo.
Outro detalhe que me chamou a atenção foi a segurança em vários cruzamentos de estradas mais movimentadas.
Mesmo sendo uma prova em autonomia, guiada maioritariamente por GPS, havia preocupação real com os pontos mais rápidos e potencialmente perigosos do percurso.
Em zonas de maior velocidade, especialmente no final de alguns estradões, existia presença policial e apoio nas travessias.
E isso, com chuva, fadiga acumulada e muitas horas em cima da bicicleta, faz diferença.
São pormenores que provavelmente passam despercebidos a muitos participantes.
Mas que acabam por mostrar quando uma organização sabe realmente o que está a fazer.
E nada disto aparece por acaso.
Nota-se claramente que existe uma cultura de evento construída ao longo dos anos.

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Há concelhos que recebem provas. E há concelhos que vivem as provas.
Águeda já percebeu isso há muito tempo.
O ambiente na partida tinha identidade própria.
As estruturas.
A forma como tudo estava montado.
A ligação visual ao evento.
E depois há detalhes que acabam por marcar a memória de quem passa por ali.
Os famosos guarda-chuvas espalhados pelo território.
Pontes coloridas no meio da natureza.
Pequenos elementos que dão identidade própria ao concelho, mesmo no meio da dureza da ultra maratona.
Tudo ajuda a criar memória.
E depois há momentos que não se planeiam.
A chuva a cair.
O céu fechado.
E, de repente, o arco-íris sobre a zona de partida.
Quase parecia que o próprio dia estava indeciso entre castigar os atletas… ou recompensá-los.
Ao longo do percurso, houve também imagens que conseguiram captar exatamente aquilo que se viveu naquele dia.
A dureza. A chuva. A luz.
E os pequenos detalhes que acabam por ficar na memória.
Há fotografias que registam atletas.
E há outras que conseguem contar o ambiente inteiro de um evento.

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Fiz os 100 quilómetros. E, mesmo sem completar a distância máxima, a prova nunca deixou de exigir respeito.
Houve zonas rápidas.
Trilhos junto à água absolutamente incríveis.

Muitas vezes, a prova seguia por singletracks estreitos junto às linhas de água e aos afluentes ligados à bacia da Barragem da Aguieira.
E aí percebia-se ainda mais o trabalho colocado no percurso.
Havia zonas técnicas.
Troços isolados no meio da natureza.
É uma sensação constante de estares a circular num território enorme, duro e, ao mesmo tempo, impressionante.
A passagem pela zona da Aguieira acabou por ser um desses momentos que ficam na memória.
Uma barragem com um peso enorme no país.
Ligada tantas vezes às cheias, às descargas e às evacuações em Coimbra e arredores.
Mas ali, naquele dia, transformada em cenário de ultramaratona.
E é curioso como o BTT às vezes consegue isso:
levar-nos a atravessar territórios que normalmente só conhecemos pelas notícias.
Floresta.
Estradões pesados.
Singletracks onde era preciso manter concentração.

Mas numa ultra, o mais difícil raramente é apenas o terreno. É gerir o desgaste silencioso.
A alimentação.
O ritmo.
A cabeça.
A forma como o corpo reage depois de várias horas.
Há atletas que ainda entram pela noite dentro.
E só isso já diz muito sobre aquilo em que esta prova se transforma quando o dia começa a desaparecer.

E, no meio dessa dureza, há pequenos momentos que ajudam a manter a prova viva.
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Até perto dos 100 quilómetros ainda vinha a desfrutar da experiência.
Mas a queda, já depois de várias horas de prova, mudou completamente o cenário.
A partir daí, a diversão desapareceu.
O corpo começou a dar sinais claros de desgaste.
E numa ultra maratona é preciso saber ouvir isso a tempo.
Com o passar dos quilómetros, até pedalar sentado começou a tornar-se insuportável.
Há uma diferença grande entre insistir… e fazer asneira.
O tempo piorou.
O terreno ficou ainda mais pesado.
E continuar, naquele contexto, já seria entrar numa zona de risco desnecessário.
Decidi parar aos 100 quilómetros.
Não foi a distância inicialmente pensada.
Mas foi provavelmente a decisão mais inteligente do dia.
Ultras também se fazem destas escolhas.
Dois dias de descanso.
Recuperar.
E voltar pronto para a próxima.

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No final, o que fica nunca é só o dorsal.
Ficam as imagens.
Os momentos.
As pessoas.
Os detalhes que quase passam despercebidos durante o esforço.
O abastecimento improvisado em ambiente quase familiar.
O voluntário que continua a sorrir apesar da chuva.
O atleta completamente coberto de lama, mas ainda em prova.
O silêncio dos trilhos.
O barulho das rodas molhadas.
O céu escuro a abrir espaço para um arco-íris improvável.

É isso que transforma uma prova numa experiência. E é também por isso que a Bairrada Ultra Marathon continua viva ao fim de onze edições.
Porque há eventos que se limitam a acontecer. E depois há eventos que conseguem criar memória.
Parabéns à organização.
Águeda voltou a mostrar porque esta ultra já conquistou um lugar próprio no calendário nacional.
πΈ Eduardo Campos




