29 de agosto de 2026 | Filipe Brito
Há aventuras que começam quando decidimos ir a algum lado. Esta começou com uma coincidência difícil de ignorar.

Santiago de Compostela.
Há aventuras que começam muito antes de começarmos a pedalar. Esta começou com uma ideia relativamente simples e com uma coincidência difícil de ignorar: vivo perto da Igreja de Santiago de Antas, em Vila Nova de Famalicão, e queria chegar de bicicleta a outro Santiago, o de Compostela.

Foi assim que, às 6h37 de sábado, comecei a pedalar ainda com o dia a nascer. Pela frente sabia que teria mais de 200 quilómetros, mas não queria fazer apenas uma longa viagem de bicicleta entre dois pontos. Queria seguir grande parte do Caminho, aceitar os diferentes pisos que aparecessem e, ao mesmo tempo, perceber até onde poderia levar esta nova experiência com a SCOTT Addict Gravel RC.
A chegada desta bicicleta abriu-me uma possibilidade que me interessava explorar. Não procurava substituir a estrada, muito menos o BTT. Continuo a gostar de cada uma dessas modalidades pelo que me proporciona. O que procurava numa Gravel era precisamente o espaço que existe entre as duas: a liberdade de sair sem ter de escolher o caminho em função da bicicleta.
Sair por asfalto, entrar numa ciclovia, encontrar terra, empedrado ou um caminho florestal e simplesmente continuar. Era essa ideia que queria testar e, se era para o fazer, achei que duas ou três horas num percurso conhecido não seriam suficientes.

Santiago pareceu-me um bom primeiro teste.
No final, o GPS registaria 216,83 quilómetros, 3.269 metros de desnível positivo, 10h22 em movimento e uma média de 20,9 km/h. Mas, olhando agora para o dia, os números são provavelmente a parte menos interessante da história.

Primeiro era preciso chegar ao Caminho
Começar junto à Igreja de Santiago de Antas tinha um simbolismo especial, até porque por Vila Nova de Famalicão passa também um dos históricos Caminhos Portugueses de Santiago, seguindo em direção a Braga e posteriormente a Ponte de Lima.
Podia ter optado por esse percurso praticamente desde casa, mas a ideia que tinha para esta aventura era outra. Queria fazer a ligação ao eixo do Caminho Português que passa por São Pedro de Rates, Barcelos, Ponte de Lima, Rubiães e Valença, antes de atravessar o Minho e continuar pela Galiza.
Por isso, depois de sair de Antas, segui pela ciclovia Famalicão–Póvoa de Varzim até encontrar o percurso que procurava. Os primeiros quilómetros acabaram por funcionar como uma ligação entre o meu ponto de partida e aquilo que, para esta aventura, considerei o verdadeiro início do Caminho.
Por volta do quilómetro 20 estava em São Pedro de Rates.

A paragem junto à Igreja Românica de São Pedro de Rates acabou por ser um daqueles momentos que agora fazem ainda mais sentido quando olho para as fotografias. Estava finalmente no traçado que queria seguir, mas tinha apenas vinte quilómetros nas pernas. Santiago continuava a quase duzentos quilómetros de distância.
Ainda agora tínhamos começado. π
De Rates segui para Barcelos e, pouco a pouco, começou a aparecer aquilo que eu procurava quando imaginei esta viagem. As estradas secundárias davam lugar a caminhos rurais, o asfalto desaparecia e regressava alguns quilómetros depois, aparecia empedrado, terra, floresta e pequenas localidades.

Mais do que andar depressa, interessava-me encontrar um ritmo que conseguisse manter durante muitas horas. Numa distância destas, aquilo que sentimos aos 40 ou 50 quilómetros pode enganar facilmente. As pernas estão frescas, tudo parece simples e é fácil gastar mais do que devemos. O problema é que aquilo que se gasta demasiado cedo costuma fazer falta quando os 200 começam a aproximar-se.
Foi também nestes primeiros setores que comecei a perceber melhor a escolha da Addict Gravel RC. Em estrada conseguia rolar sem sentir que estava numa bicicleta condicionada pelo facto de estar preparada para terra. Quando o piso mudava, não tinha imediatamente de procurar uma alternativa. Continuava.
Era precisamente isto que procurava quando decidi avançar para uma Gravel: não ter de adaptar permanentemente a aventura à bicicleta.
Ponte de Lima e o momento em que o Caminho mudou

A chegada a Ponte de Lima trouxe uma daquelas paragens que fazem parte deste tipo de dia. Houve tempo para uma fotografia junto à ponte, para olhar um pouco à volta e para continuar sem a preocupação de estar a perder minutos.
Não queria fazer de Santiago uma corrida contra o relógio. Naturalmente que tinha de gerir o tempo e sabia que ainda havia muitos quilómetros pela frente, mas parar em alguns lugares, fotografar e aproveitar o percurso também fazia parte da razão pela qual ali estava.
Depois de Ponte de Lima, o Caminho começou a mostrar outra personalidade.

O terreno tornou-se mais exigente e houve zonas em que a ideia de que uma Gravel nos permite passar em qualquer lado rapidamente encontrou os seus limites. Pedra, inclinação e alguns setores onde insistir em pedalar não faria grande sentido levaram à solução mais simples: sair da bicicleta e colocá-la às costas.
Há uma fotografia desse momento de que gosto particularmente porque resume bem a realidade de uma aventura destas. Lá vou eu, no meio do percurso, com uma Addict Gravel RC ao ombro.
Não era propriamente a utilização que tinha imaginado para uma Gravel topo de gama. π

Mas também não queria fazer esta viagem escolhendo sempre a solução mais fácil. Se o objetivo fosse simplesmente chegar a Santiago o mais depressa possível, existiam percursos muito mais adequados. Escolher o Caminho significava aceitar aquilo que ele nos apresentasse e, naquele momento, apresentou pedra. Muita pedra.
Foram alguns setores a caminhar, bicicleta às costas, e depois novamente a pedalar assim que o terreno o permitia. Sem qualquer drama. Fazia parte da experiência e, de certa forma, tornava ainda mais interessante aquilo que estava a descobrir sobre este tipo de bicicleta.
Uma Gravel não faz milagres, nem precisa de fazer. O interessante é a quantidade de situações diferentes em que consegue funcionar muito bem.

Valença, almoço e uma fronteira que mudou o dia
Quando Valença começou a aproximar-se, os quilómetros já se sentiam de outra maneira. Foi aí que fizemos uma paragem mais demorada para almoçar e recuperar um pouco antes de entrar em Espanha.
Faço questão de referir estas paragens porque, quando vemos depois uma atividade no Strava com mais de 200 quilómetros e dez horas de tempo em movimento, pode ficar a ideia de que tudo aconteceu numa sucessão contínua de esforço. Não foi assim, nem queria que fosse.
Houve tempo para comer, beber, fotografar e aproveitar alguns dos lugares por onde passávamos. Num dia destes, parar para almoçar não é perder tempo. É também garantir que ainda existe energia para aquilo que falta.
Depois de Valença atravessámos o Minho, entrámos em Espanha e começou uma nova parte da aventura. Tui, Galiza, Província de Pontevedra. A fotografia junto à placa de entrada em Espanha regista essa mudança, mas houve outra que não aparece na placa.

A chuva.
Começou praticamente com a entrada em Espanha e resolveu acompanhar-nos durante boa parte do que ainda faltava.
Depois de tantas horas em cima da bicicleta, pedalar molhado altera bastante a experiência. O piso exige mais atenção, a temperatura muda, a roupa começa a pesar e pequenos desconfortos que durante a manhã quase passavam despercebidos tornam-se mais evidentes.
E, curiosamente, era também isto que eu queria deste primeiro grande teste.
Não queria perceber apenas se a Addict Gravel RC era rápida durante duas horas ou divertida num caminho de terra escolhido para uma fotografia. Queria saber como me sentiria depois de muitas horas, diferentes pisos, acumulado, zonas mais técnicas e condições meteorológicas que já não eram propriamente as ideais.
É nessas alturas que começamos realmente a conhecer uma bicicleta. A posição, o conforto, a confiança quando o piso piora e até a forma como nos sentimos depois de tantas horas deixam de ser características escritas numa ficha técnica e passam a ser experiência.
As batatas fritas que souberam pela vida
Antes de Pontevedra aconteceu um dos momentos menos sofisticados de toda a viagem e, provavelmente, um dos que recordarei com maior facilidade.
Já levávamos muitas horas e muitos quilómetros quando parámos para comer qualquer coisa. O menu foi particularmente elaborado: um pacote de batatas fritas e uma Coca-Cola.
E bem que soube. π
Não vou obviamente transformar isto numa recomendação nutricional. Mas quem já passou muitas horas em cima de uma bicicleta sabe que há momentos em que determinadas coisas sabem simplesmente pela vida.
Foi um daqueles.

Comemos, bebemos, descansámos alguns minutos e voltámos à bicicleta com outra disposição. Talvez não tenha sido a refeição mais sofisticada da viagem, mas naquele momento cumpriu perfeitamente a sua função.
Santiago estava cada vez mais perto, embora ainda não estivesse suficientemente perto para começar a festejar.
A determinada altura de uma aventura longa deixamos de fazer grandes contas ao total. Começamos a dividir aquilo que falta em pequenas partes. A próxima localidade, a próxima subida, a próxima indicação do Caminho, mais dez quilómetros.
Quando os 200 começaram a aproximar-se, o corpo já não escondia aquilo que tinha feito durante o dia. As pernas sabiam, as mãos também e as costas não tinham qualquer dificuldade em recordar-me há quantas horas estava em cima da bicicleta.
Ao mesmo tempo, começou a acontecer o contrário na cabeça. Santiago, que às 6h37 era apenas um destino colocado no GPS, começava finalmente a parecer real.
As indicações para Compostela ganhavam outro significado. Cada quilómetro retirado ao que faltava valia muito mais do que aqueles que tinham desaparecido durante a manhã.
A chuva continuava.
Nós também.
De Santiago a Santiago

A chegada à Praça do Obradoiro teve exatamente o cenário que o resto da tarde fazia prever. Chovia, o piso estava molhado, a bicicleta trazia as marcas do caminho e eu também.
E depois apareceu a Catedral de Santiago de Compostela.
Parei.
Talvez uma das fotografias que melhor resume todo o dia seja precisamente aquela em que estou junto à bicicleta, sem olhar para a câmara, simplesmente a olhar para a Catedral.
Naquela manhã tinha começado junto a uma Igreja de Santiago, praticamente à porta de casa. Agora estava diante de outro Santiago.
Entre os dois ficaram 216,83 quilómetros.
Foram 3.269 metros de desnível positivo, 10 horas e 22 minutos efetivamente a pedalar e uma média de 20,9 km/h.
Fiquei cerca de uma hora pela zona da Catedral. O GPS permaneceu ligado e continuou posteriormente até à deslocação para a boleia, pelo que o tempo total que aparece no equipamento não corresponde à duração efetiva da viagem. O registo que melhor traduz o esforço são aquelas 10h22 em movimento.
Mas, naquele momento, pouco me interessavam as contas.
Tinha chegado.
Afinal, porquê uma Gravel?
Esta aventura tinha também uma pergunta à qual queria começar a responder.

Quando decidi avançar para a SCOTT Addict Gravel RC, queria perceber que espaço esta bicicleta iria ocupar entre aquilo que já faço na estrada e no BTT.
Depois destes 217 quilómetros, a resposta começou a ficar mais clara.
Não veio substituir nenhuma delas. Veio permitir outro tipo de aventura.
Neste dia houve asfalto onde interessava rolar, ciclovia, empedrado, terra, caminhos florestais e até zonas suficientemente complicadas para acabar com a bicicleta às costas. Foi precisamente nessa diversidade que a Addict Gravel RC fez sentido.
Mantém muito daquela sensação de rapidez e eficiência que procuro numa bicicleta de estrada, mas dá-me liberdade para continuar quando o piso muda e o asfalto deixa de ser a opção mais interessante.
Talvez seja isso que mais me atrai neste conceito.
Não ter de decidir antecipadamente se naquele dia vou fazer estrada ou caminhos. Posso simplesmente decidir onde quero chegar e depois descobrir como lá chegar.

Santiago mostrou-me também que uma bicicleta deste género não precisa de viver apenas de voltas curtas ou de fotografias bonitas em caminhos de terra. Depois de mais de dez horas a pedalar, 216,83 quilómetros e 3.269 metros de subida, mostrou-me que pode ser uma verdadeira bicicleta para grandes aventuras.
Naturalmente que haverá bicicletas melhores para terrenos específicos. Uma bicicleta de estrada será mais eficaz em determinadas situações e uma BTT permitirá fazer coisas que não fazem qualquer sentido numa Gravel.
Mas quando uma aventura junta vários mundos no mesmo dia, esta versatilidade começa a fazer muito sentido.
Foi por isso que escolhi uma Gravel.
E foi também por isso que escolhi começar este novo capítulo assim.

De Santiago a Santiago.
A AVENTURA EM NÚMEROS
Santiago de Antas → Santiago de Compostela
Data: 29 de agosto de 2026
Distância: 216,83 km
Desnível positivo: 3.269 m
Tempo em movimento: 10h22
Velocidade média: 20,9 km/h
Partida: 06h37
Bicicleta: SCOTT Addict Gravel RC
O que ficou destes 217 quilómetros
Se voltasse a fazer este percurso, há coisas que faria exatamente da mesma forma.
Voltaria a sair cedo e a controlar o ritmo nas primeiras horas. Voltaria a levar o percurso carregado no GPS, mantendo também uma alternativa no telemóvel, porque seguir as indicações do Caminho a velocidade de bicicleta nem sempre é tão simples como parece.

Luzes, proteção para a chuva e material para resolver pequenos problemas mecânicos continuariam a ser obrigatórios. E daria novamente muita atenção à posição na bicicleta. Dez horas a pedalar têm uma capacidade extraordinária para revelar pequenos desconfortos que num treino normal passam quase despercebidos.
Mas talvez a principal conclusão seja outra.
Não faria esta viagem obcecado com o tempo final.
Parar em São Pedro de Rates, atravessar Ponte de Lima sem pressa, almoçar em Valença, tirar fotografias ou simplesmente olhar para aquilo que nos rodeia não são interrupções da aventura. Fazem parte dela.
No início do dia havia uma fotografia junto a uma Igreja de Santiago. No final havia outra diante da Catedral de Santiago de Compostela.
Entre as duas passou apenas um dia, mas ficaram São Pedro de Rates, Barcelos, Ponte de Lima, floresta, pedra, uma bicicleta às costas, Valença, uma fronteira, chuva, Pontevedra, umas batatas fritas e uma Coca-Cola que souberam pela vida, cansaço e finalmente Compostela.
Podemos estudar o percurso, carregar o GPS, consultar a meteorologia, preparar a bicicleta e fazer todas as contas aos quilómetros.
Só há uma coisa que não conseguimos preparar completamente:
aquilo que vai acontecer entre a partida e a chegada.
E talvez seja precisamente isso que continua a fazer valer a pena partir.



