Uma prova termina quando o último atleta cruza a meta.
Um grande evento continua a promover um território muito depois de as bicicletas regressarem a casa.
Foi exatamente essa experiência que decidi contar aqui.

Rota da Mamôa 2026
Ao longo de dois dias vivi muito mais do que uma maratona de BTT. Vi uma organização que pensa nos atletas, uma cidade que sabe receber e centenas de pessoas unidas pela mesma paixão.

πππππ πππππ ππ ππππππππ ππππππππ
Ao longo dos anos, participei em centenas de eventos de BTT.
Alguns ficaram na memória pelos trilhos.
Outros pela dureza.
Outros pelos resultados.
Mas existem aqueles que se distinguem por algo muito mais difícil de construir.
As pessoas.
A ROTA DA MAMOA é um desses exemplos.

A minha ligação a este evento não começou nesta edição. Foi sendo construída ao longo de dois anos, acompanhando a evolução de um projeto que cresceu de forma sustentada, sempre com a ambição de proporcionar uma experiência cada vez melhor aos participantes.
Quando surgiu novamente o convite para regressar a Aveiro, aceitei-o com enorme satisfação.
Sabia que iria encontrar uma excelente prova.
O que ainda não imaginava era voltar a confirmar algo que considero cada vez mais importante.
Os grandes eventos começam muito antes da linha de partida.
Começam na forma como recebem as pessoas.

ππππππ πππππππ-ππ ππππ πππππππ π πππ
A viagem até Aveiro aconteceu no sábado.

Depois da habitual passagem pelo secretariado, onde tudo decorria com organização e tranquilidade, seguiu-se o check-in no Hotel As Américas, preparado pela organização.
Pode parecer apenas um detalhe logístico.
Na realidade, não é.

Quem participa regularmente em eventos percebe rapidamente quando existe preocupação em proporcionar uma boa experiência desde o primeiro momento.
E essa atenção sente-se muito antes de colocar o dorsal.
Com algum tempo livre antes do jantar, aproveitei para percorrer a cidade na minha bicicleta e ver toda a logística a ser montada na avenida, que seria a linha de partida e chegada da meta.
Aveiro preparava-se para receber centenas de atletas.
Na zona da meta, as estruturas começavam a ganhar forma.
Os voluntários ultimavam detalhes.
Os parceiros montavam os seus espaços.

As últimas verificações aconteciam com a natural tranquilidade de quem sabe exatamente aquilo que está a fazer.
Enquanto muitos apenas conhecem um evento no domingo de manhã, existe um enorme trabalho invisível que começa muitos dias antes.
É precisamente esse trabalho que permite que tudo pareça simples.
E talvez esse seja o maior elogio que se pode fazer a uma organização.
Quando tudo funciona naturalmente, é porque houve muito profissionalismo nos bastidores.

ππππππππ ππππππ
Ao longo dos anos aprendi uma coisa.
Os atletas esquecem rapidamente uma classificação.
Mas raramente esquecem uma organização que os recebeu bem.
Nunca esquecem um voluntário que ficou horas ao sol.
Nunca esquecem um abastecimento que apareceu no momento certo.
Nunca esquecem um fotógrafo que registou um momento especial.
Nunca esquecem uma população que saiu à rua para aplaudir.
São essas pequenas memórias que fazem um participante voltar no ano seguinte.
E são essas mesmas memórias que transformam uma prova numa referência.

ππππππ π πππ ππππÉπ πππππππ ππ ππππππÓπππ
Enquanto pedalava por Aveiro, dei por mim a pensar numa realidade que muitas vezes passa despercebida.
O BTT é muito mais do que uma modalidade desportiva.
É também uma extraordinária ferramenta de promoção dos territórios.
Ao longo dos anos, perdi a conta ao número de atletas que, no final de uma prova, me disseram exatamente a mesma frase.
"Nunca tinha vindo aqui."
Ou então...
"Não fazia ideia de que este concelho tinha lugares assim."
Talvez seja esse um dos maiores méritos da bicicleta de montanha.
Levar-nos por caminhos onde dificilmente passaríamos de outra forma.
Mostrar patrimônio.
Mostrar natureza.
Mostrar tradições.
Mostrar gastronomia.
Mostrar pessoas.

No fundo, mostrar um concelho através daquilo que ele tem de mais autêntico.
Quando um município acredita no BTT, não está apenas a apoiar uma competição.
Está a criar oportunidades para que centenas de pessoas descubram o seu território.
E muitas delas regressam.
Desta vez com a família.
Com amigos.
Ou simplesmente porque querem voltar a percorrer aqueles trilhos.
É precisamente aí que o desporto ultrapassa a competição.
Passa a gerar movimento económico.
Valoriza hotéis.
Restaurantes.
Comércio local.
Turismo.
E continua a promover o concelho muito depois de o último atleta regressar a casa.

Á ππππ ππππÉπ ππ ππππππÓπ ππ ππππππ
O dia terminou no Restaurante Segreto.
Foi muito mais do que um jantar.
Foi um momento de partilha entre organização, convidados, parceiros e amigos.
Falou-se naturalmente de BTT.
Dos desafios que existem para organizar um evento desta dimensão.
Das dificuldades.
Mas também da enorme satisfação que existe quando, no final, tudo corre bem.
Os proprietários fizeram questão de guardar uma fotografia daquele momento.
Um gesto simples.
Mas que demonstra exatamente aquilo que senti durante todo o fim de semana.
Hospitalidade.
Proximidade.
Sentimento de pertença.
Porque existem eventos onde somos convidados.
E existem outros onde nos fazem sentir parte da casa.
A Rota da Mamôa conseguiu transmitir exatamente essa sensação.
ππππππ π ππππππ ππππππ ππ ππππ πππ
Ainda o sol procurava ganhar força e a cidade já dava sinais de que aquele não seria um domingo igual aos outros.
Pouco a pouco, a avenida começou a encher-se de bicicletas.
Carrinhas.
Equipas.
Famílias.
Grupos de amigos.
Atletas que aproveitavam os últimos minutos para ajustar uma suspensão, verificar a pressão dos pneus ou simplesmente conversar antes da partida.
Durante um fim de semana, a bicicleta deixou de ser apenas um meio de transporte.
Passou a ser o ponto de encontro entre milhares de pessoas que partilhavam exatamente a mesma paixão.
É um ambiente difícil de explicar a quem nunca viveu um grande evento de BTT.
Há nervosismo.
Há concentração.
Mas há também muitos sorrisos.
Porque, para a maioria dos participantes, aquele dia não era apenas uma corrida.
Era o culminar de semanas de preparação.
Era um domingo esperado há muito tempo.
Era mais uma história para acrescentar ao álbum de memórias.
ππππ ππ πππ π πππππππ πππ... πππππππ.

Ainda antes da partida houve tempo para aquilo que mais gosto nestes eventos.
Conversar.
Reencontrar amigos.
Conhecer novos participantes.
Trocar duas palavras.
Tirar uma fotografia.
Receber um abraço.
Ao longo dos anos, tenho sido abordado por muitas pessoas que acompanham aquilo que vou partilhando.
Confesso que continuo sem me habituar completamente a esse carinho.
Nem procuro que assim seja.
Nunca gostei de me sentir diferente dos restantes atletas.
Porque, no fundo, sou exatamente isso.
Mais um apaixonado pela bicicleta de montanha.
Mais um colega que, tal como todos os outros, acordou cedo para fazer aquilo de que mais gosta.
Se existe algum reconhecimento, gosto de acreditar que resulta apenas da forma genuína como procuro viver esta modalidade.
Dentro e fora das competições.

Há uma fotografia que gosto sempre de tirar antes das partidas.
Não é a minha.
É a fotografia que guardo na memória.
Olho à minha volta e vejo atletas de todas as idades.
Alguns vão lutar pelos primeiros lugares.
Outros apenas querem terminar.
Há pais e filhos.
Grupos de amigos.
Equipas inteiras.
Colegas que apenas se reencontram nestes eventos.
E é precisamente aí que percebemos que o BTT nunca foi apenas competição.
É também amizade.
Superação.
Saúde.
Convívio.
É uma enorme comunidade que cresce sempre que existe uma organização capaz de juntar todas estas pessoas no mesmo local.
ππππππ π πππππππππ πππππ π πππππππ
Há um instante muito próprio antes de cada partida.
Os segundos parecem passar mais devagar.
O barulho das conversas começa a desaparecer.
Os atletas ocupam o seu lugar.
O olhar fica fixo na frente.
O coração acelera.
Mesmo depois de tantos anos a competir, continuo a sentir esse momento exatamente da mesma forma.
Porque nunca sabemos verdadeiramente como será o dia que temos pela frente.
E talvez seja isso que torna este desporto tão especial.
Quando o sinal de partida foi dado, a tranquilidade transformou-se imediatamente em movimento.
Centenas de bicicletas arrancaram praticamente ao mesmo tempo.
Durante alguns segundos, a avenida pertenceu apenas ao som das transmissões, dos pneus a procurar espaço e da enorme energia que só um arranque destes consegue criar.
π πππππππ ππππÇπ πππππ πππππ ππ πππππππ πππÇÃπ

Os primeiros quilómetros foram rápidos.
Muito rápidos.
Consegui arrancar bem e posicionar-me junto dos atletas da frente.
As pernas responderam exatamente como esperava.
A Scott Spark RC transmitia aquela confiança que já me acompanha há muitos quilómetros.
Foi um daqueles dias em que tudo parecia encaixar.
Mas, curiosamente, aquilo que mais recordo nem é o ritmo da corrida.
É olhar para trás, já durante o percurso, e perceber que centenas de pessoas continuavam espalhadas pelos trilhos.
Cada uma a viver exatamente o mesmo evento.
Mas de uma forma completamente diferente.
Foi aí que me lembrei de uma ideia que tenho defendido sempre que converso com quem organiza provas.
π πππππ πππÃπ ππππππππ ππππππ
Ao longo dos anos fui mudando a minha forma de olhar para os eventos.
Hoje acredito que o sucesso de um evento não está apenas na qualidade da competição.
Está na capacidade de fazer cada participante regressar a casa com vontade de voltar.
São esses participantes que regressam no ano seguinte, que trazem amigos, que falam da prova, que partilham fotografias e que ajudam a construir a reputação de um evento.
É por isso que acredito que pensar na maioria dos participantes é investir no futuro da modalidade.
É precisamente nos pequenos detalhes que essa preocupação se torna visível.
Os abastecimentos dizem muito sobre um evento.
Quem nunca competiu poderá pensar que um abastecimento serve apenas para matar a fome.
Na realidade, são muito mais do que isso.

Para quem luta pelos primeiros lugares, pode significar apenas alguns segundos para encher um bidão ou comer um gel.
Mas, para quem passa duas, três ou quatro horas no percurso, representa algo completamente diferente.
É uma pausa.
É recuperar forças.
É ganhar motivação.
É sentir que houve alguém a pensar em si.
Fruta fresca.
Água.
Bebidas.
Alimentação adequada.
E, acima de tudo, voluntários que recebem cada participante com um sorriso.
Tudo isso transmite uma mensagem muito simples:
"Estamos felizes por estarem aqui."
Na Rota da Mamôa, senti exatamente essa preocupação.

Os abastecimentos não estavam ali apenas para cumprir um regulamento.
Estavam preparados para cuidar de todos os participantes, independentemente do ritmo ou da classificação.
Enquanto atleta, é impossível não valorizar isso.
Porque são precisamente estes detalhes que fazem uma pessoa regressar a casa e dizer:
"Para o ano volto."
ππππ πππππ πππππππ π πππ ππÓππππ ππππÓπππ
Quando finalmente deixámos a avenida e entrámos nos primeiros trilhos, tudo aquilo que acontecia à nossa volta ficou para trás.
As conversas desapareceram.
Os sorrisos deram lugar à concentração.
A partir daquele momento, cada atleta ficou apenas com a bicicleta, o percurso e os seus próprios pensamentos.
É sempre um momento especial.
Por muito que se treine, por muita experiência que exista, cada prova acaba sempre por escrever uma história diferente.
Foi exatamente isso que senti na Rota da Mamôa.

ππππππ ππ ππππππ πππππππππ
Desde os primeiros quilómetros senti que o corpo estava a responder exatamente como esperava.
O ritmo apareceu naturalmente.
A Scott Spark RC transmitia aquela confiança que já me acompanha há muitos quilómetros.
Consegui integrar um grupo bastante adiantado durante a fase inicial da prova e manter sempre boas sensações.
No final ficou aquela sensação que qualquer atleta conhece.
Talvez tivesse ficado alguma margem para arriscar um pouco mais.
Mas essa também é uma das razões pelas quais continuamos a treinar.
O desporto vive dessa procura constante por evoluir.
Ainda assim, quando olho para trás, aquilo que mais recordo deste dia não é a classificação.
São as pessoas.
São os trilhos.
São os momentos.
Porque há provas em que o resultado ocupa apenas uma linha.
Mas há experiências que permanecem connosco durante muitos anos.

π πππππ ππππππππππÇÃπ ππ πππππ
Junho tem sido um mês particularmente exigente.
Muito calor.
Muitos quilómetros.
Muitas aventuras consecutivas.
Nestes dias tenho dado ainda mais atenção à hidratação e à suplementação.
Durante a Rota da Mamôa mantive a estratégia que tenho vindo a utilizar nas últimas semanas.
Pela minha experiência, o gel de vinagre da 226ERS continua a ser um dos produtos em que mais confio quando as temperaturas sobem.
Ajuda-me a manter o ritmo, a gerir melhor o esforço e continua a fazer parte da minha estratégia de nutrição em competição.
No desporto não existem milagres.
Existe preparação.
Treino.
Experiência.
E pequenas decisões que, somadas, acabam por fazer toda a diferença.

πππ πππππππππ ππππÉπ πππππ ππππÓππππ
No final da prova, olhei para a minha Scott Spark RC.
Coberta de pó.
Marcada por mais uma aventura.
Depois de um mês particularmente intenso, com provas, viagens e muitos quilómetros acumulados, começa naturalmente a mostrar alguns sinais de desgaste.
A transmissão já pede uma renovação.
Mas continua ali.
Sempre pronta para mais uma aventura.
Sem desculpas.
Tal como acontece connosco, também as bicicletas contam histórias.
Cada risco.
Cada pedra.
Cada camada de pó.
Tudo faz parte do caminho.

π ππππππ ππ ππ ππππππ ππππππ
Quando a última bicicleta abandona a linha de meta, para muitos parece que o evento terminou.
Na realidade, é aí que começa outra parte da história.
Os hotéis continuam a receber visitantes.
Os restaurantes ficam na memória de quem passou pela cidade.
O comércio local beneficia do movimento criado durante o fim de semana.
As fotografias percorrem as redes sociais.
Os vídeos continuam a mostrar Aveiro a milhares de pessoas.
Os artigos permanecem disponíveis durante meses ou anos.

E muitos atletas acabam por regressar mais tarde, desta vez com a família ou com amigos, para conhecer melhor os locais por onde passaram durante a prova.
É por isso que acredito que o BTT tem hoje um papel muito maior do que simplesmente organizar competições.
Valoriza pessoas.
Promove património.
Impulsiona o turismo.
Dinamiza o comércio local.
E dá a conhecer um território.

Quando organizações, municípios, voluntários, patrocinadores e atletas caminham na mesma direção, todos acabam por ganhar.
Ao longo dos anos aprendi também outra coisa.
O sucesso de um evento não se mede apenas pelo número de inscrições.
Mede-se pela quantidade de pessoas que regressam a casa a dizer:
"Para o ano volto."
É essa vontade de regressar que faz crescer uma prova.
É isso que fortalece um concelho.
E é isso que ajuda a fazer crescer o BTT.

πππ πππππππππ À ππππππ ππ π ππ ππ ππππππ
Há gestos que parecem pequenos.
Mas dizem muito sobre quem organiza um evento.
Antes de regressar a casa, ainda houve tempo para conhecer Aveiro de uma forma diferente.
A Aveiro Evolutions proporcionou-nos um passeio de moliceiro pelos canais da cidade.
Foi uma forma tranquila de terminar um fim de semana intenso.
Depois da adrenalina da competição, houve tempo para conversar, observar a cidade com outro olhar e perceber que uma prova também pode ser uma oportunidade para descobrir o território que a recebe.
São estes momentos que transformam uma participação numa verdadeira experiência.
Nem tudo acontece em cima da bicicleta.
E talvez seja precisamente isso que torne um fim de semana inesquecível.

ππÉ πππππ, ππππ ππ πππÔπ
Quando regressava a casa, pensava numa frase que ouvi várias vezes durante o fim de semana:
"Para o ano voltamos."
Talvez seja esse o maior elogio que um evento pode receber.
Não é o número de inscrições.
Não são os tempos.
É a vontade de regressar.
Quero deixar uma palavra de agradecimento à equipa da Rota da Mamôa, aos voluntários, parceiros, patrocinadores, fotógrafos, forças de segurança, ao Município de Aveiro e a todas as pessoas que, muitas vezes longe das objetivas, tornam possível um evento desta dimensão.
Obrigado pelo convite.
Obrigado pela confiança.
Obrigado pela forma como me receberam.
E obrigado por nunca perderem de vista aquilo que realmente faz crescer um grande evento:
as pessoas.
Porque, no final...
Ganham os atletas.
Ganham os organizadores.
Ganham os voluntários.
Ganham as comunidades que acreditam nestes projetos.
Ganha o comércio local.
Ganha o território.
E ganha, acima de tudo, o BTT.
Ganha Aveiro.
Até breve, Rota da Mamôa.
A todos os fotografos o meu muito obrigado!



